PRÁTICA + REFLEXÃO + PRÁTICA

POR QUE ESCOLHEMOS CONTOS TRADICIONAIS? 

Acreditamos que a tradição oral seja ainda a forma mais significante de circulação de saberes, o que remonta origens remotas e hoje é atualizada pela cultura do audiovisual. A palavra tinha um peso que hoje se perdeu. Peso que se dilui nas imagens publicitárias, no discurso frenético televisivo e dos jogos eletrônicos, espaços que especialmente as crianças ora dominam, ora são dominadas.

A arte pode unir o artesanal e o tecnológico, pode unir corpo, imagem e palavra. A arte pode produzir sentidos e conhecimento. Pelo seu poder de ser uma tradição oral guardada pela força do encontro dos homens e pelo tempo, a arte de contar histórias pode retomar o sentido da memória, da importância do compartilhar saberes e de transformar seus ouvintes em responsáveis pelas próprias histórias e pelo ato de disseminar saberes adquiridos por meio da palavra ou pela narrativa seja ela corporal, imagética ou literária.

 

POR QUE DANÇA, INSTALAÇÃO E VÍDEO?

 

Dança – Instalação: A prática com o próprio corpo, com o espaço, com os objetos do entorno e com o universo audiovisual.

Relacionaremos em nossa criação dança e instalação. A arte instalação é um formato que possibilita o contato com os espaços e materiais da comunidade. Investigar o ethos do local e seus objetos amplia a percepção do entorno e oferece uma poética das coisas cotidianas. Os materiais das instalações serão definidos com as crianças a partir de atividades nos locais públicos da Vila; os espaços de montagem podem ter como cenário elementos do cotidiano delas, como árvores, paredes, plantas etc.

Já a proposta de video dança busca desvendar os mecanismos do vídeo, formato que tem grande circulação e desperta interesse nas crianças, e pode ampliar ainda mais a experiência que elas têm com a dança.

A instalação, a dança e o vídeo, juntos, permitem uma união entre o analógico e o digital, o artesanal e o tecnológico, entre o contato direto com materiais cotidianos observados com outros olhos, o próprio corpo e o universo audiovisual das crianças, basicamente televisivo e de jogos eletrônicos. Cada participante, será, assim, convidado a ser o centro produtor de saberes materiais e audiovisuais.

Comunicação musical

por Paulo Afonso*

Consideramos que todo indivíduo que escuta e aprecia música, sabe música. Todos estes tem conhecimento sobre os aspectos que fazem “daquele som” música, mesmo não sabendo explicar ou discorrer sobre. E mesmo não verbalizando teoricamente, sabe quando a música está ou não de acordo com o que considera música. Esse conhecimento é o suficiente para que estes possam interagir e participar, improvisando, compondo e criticando músicas.

Os exercícios de improvisação e composição propostos promoveram uma sensibilização para a interação dos participantes em contextos musicais, estabelecendo, então, formas de comunicação musical entre os artistas. E, além disso, é claro, pudemos também utilizar as mesmas propostas para compor música interagindo com as danças e vídeo-danças produzidos. Sendo assim, algumas peças foram improvisadas na interação com danças que eram criadas naquele momento ou vídeos de danças previamente criadas.

Dessa forma, pudemos elaborar material rico para a composição da trilha do vídeo-dança. Os encontros e sessões de música foram gravados e utilizados na edição da trilha sonora do vídeo-dança.

A utilização de objetos do cotidiano dos moradores participantes como instrumentos musicais foi proposto como forma de trazerem para a música, a ser composta para trilha do vídeo-dança, elementos sonoros presentes e significantes em suas vidas. Foi a primeira etapa do processo – a escolha de sons – e, no fundo, era também um pretexto para sensibilizar um ouvido seletivo, que escolhe o que quer ouvir (uma primeira forma elementar de composição).

No decorrer do processo foram introduzidos outros instrumentos, mais elaborados, feitos com objetos cotidianos para promover inspiração, no que diz respeito a onde o ouvido pode chegar. Afinal de contas, os instrumentos musicais que todos conhecem foram desenvolvidos por donos de ouvidos que escolhiam seus sons.

* Bacharel em Violão e Licenciado em Educação Musical pela Unirio.

O bolo e o jardim do não pertence

por Juliana França

Essa experiência me fez mais uma vez pensar sobre a separação. Sobre a armadilha da separação e a superficialidade. Se aprendemos a fazer um bolo em uma sala fechada com trinta pessoas, sem forno, sem vó, sem, farinha, sem risada, talvez não saibamos o que fazer quando faltar o açúcar ou compreender que na realidade fazemos o bolo pra passar um tempo junto com alguém. Mas o mais grave de tudo isso é que, sem sentir o gosto do bolo, talvez a experiência de aprender uma receita nunca faça sentido. E aí eu penso que mesmo um simples bolo não pode ser resumido a uma combinação de ingredientes, um bolo é também uma experiência, um acontecimento.

E aí eu me lembro de quando comecei a pensar que direção e nível não eram dança. E ainda penso no perigo de separar por barreiras invisíveis e muito melindrosas a arte educação do fazer artístico. O artista do “arte educador”. As ferramentas técnicas da criação. Os alunos dos orientadores. As crianças dos adultos. E quando olho para os lados ainda vejo que continuamos a aprender o que não precisamos, de maneira fragmentada e separada da sua experiência.

O confronto inicial foi tentar entender porque, mesmo em um espaço criado para experimentar uma visão menos engavetada de gerar processos de educação e arte com crianças, parecia tão difícil diluir essas barreiras invisíveis, culturais, históricas, criadoras de separação. A realidade do primeiro contato com o grupo, mesmo que sensível, fértil e plural, me fazia pensar:

Estamos mesmo gerando processos de educação a partir das necessidades do nosso fazer artístico?Estamos mesmo atuando aqui como artistas?Estamos mesmo gerando condições para que as crianças possam participar das escolhas e da concepção do trabalho?Estamos mesmo construindo juntos alguma coisa que faz sentido para todos?Estamos mesmo horizontalizando essa experiência ao mesmo tempo que assumindo as diferenças?

Perseguir esse “estamos mesmo?” nos levou ao entendimento de que precisávamos abrir alguns caminhos. Para isso trabalhamos em duas direções: penetrando um pouco mais nas individualidades (tanto das crianças como dos adultos) em relação ao que estávamos criando e estabelecendo uma comunicação pela via do sensível e não da funcionalidade (professor que está ali para nos ensinar, eu que estou aqui para aprender) horizontalizando a nossa relação.

Precisávamos todos encontrar uma maneira de ser dentro de um coletivo, aprofundando os vínculos individuais com a criação ao mesmo tempo que o sentido de estar junto. Para viver a arte como experiência singular foi preciso contrariar uma tendência para a anulação e escapar de um estado de funcionalidade e superficialidade que insiste em permear a existência do nosso tempo. No final das contas, finalmente tinha um bolo quentinho pra gente comer junto.

 

A arte como experiência

“A matéria de nossa arte está aí, no que pensam nossos olhos”

Paul Cézanne

“É no brincar e talvez apenas no brincar que a criança ou o adulto fluem sua liberdade de criação e podem utilizar sua personalidade integral e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu”

d. W. Winnicott

 

por Gabriela Canale*

Os artistas adultos estão sempre brincado, com seriedade (ou não), com técnica e crítica, mas sempre brincando. Os artistas adultos aprofundam seus conhecimentos do brincar infantil. Ora brincam com a lógica, ora com a razão, ora com a obviedade, ora com os sentidos – que são também práticas da brincadeira para as crianças. A escolha deste projeto de aproximar artistas adultos e crianças é a escolha pela arte como uma brincadeira que nos aproxima de quem somos, que nos coloca em processos de diálogo e de auto-conhecimento em que a experiência é o mais importante, e não a idade.

A matéria-prima da nossa brincadeira foi um texto literário, um conhecimento repassado de gerações para gerações. Escolhemos uma história ancestral marcada por imagens potentes (a infância, o poder, o interdito, o dionísíaco, a religão, a sociabilidade, a identidade) para abrir os olhos de artistas adultos e artistas crianças.

No processo nos perguntamos para onde estamos olhando. Como estamos olhando? Em uma realidade que, como regra geral, orienta os olhares de adultos e crianças basicamente para o consumo ou para padrões de discursos, comportamentos e corpos estereotipados (seja na televisão, na internet, nas músicas massivas, nas revistas) nos propusemos lidar de forma ampla e metafórica com o olhar.

A partir de uma história ancestral que versa sobre as armadilhas e as escolhas nós vivemos um caminho de descoberta da identidade, da potência criativa de cada um de nós. Vivemos propostas em que abrimos os olhos do corpo, os olhos dos ouvidos, os olhos sobre o espaço.

Brincamos, portanto, elaborando um pensamento sobre o olhar, um olhar mais amplo que é, no fundo, uma experiência. Vimos, juntos, trabalhos de artistas do vídeo, da instalação, da dança, da música. Vimos também os movimentos corporais que cada um quis produzir a partir da história. Vimos as possibilidades de registrar este momentos, de editá-los. “Vimos” os sons do ambiente, dos objetos, seus ritmos. Vimos o local onde moramos como um espaço de criação que nos serviu como cenário, palco e matéria-prima para pesquisa.  Nossos “olhos”pensaram e brincaram lendo o mundo e a nós mesmos.

*graduada em Comunicação, mestre em Estudos Literários (UEL) e doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP). É artista multimídia nas horas vagas e preciosas. 

 

Sobre os artistas: os pequenos, os grandes e o fim.

 Por Renata Fernandes

Em 1883, caminhando pelas ruas chuvosas de um dia de inverno em Bolonha na Itália, Corrado Ricci, um importante arquiteto italiano à época, se vê forçado a parar embaixo dos arcos característicos da arquitetura daquela cidade para proteger-se da chuva. Descreve assim o que encontrou:

“Eu não sabia que abaixo daqueles arcos se encontrava uma exposição permanente, literária e artística, de pouco valor estético, se é que se pode dizer, e também pouco pudica, mas em compensação profundamente envolta numa modéstia rara para os tempos atuais. Poucos trabalhos levam a assinatura do autor pelo que se deve ainda lamentar uma grave lacuna na história da arte a da literatura italiana. Aqueles versos e aqueles desenhos são quase sempre inspirados no mais profundo naturalismo, e em frente a eles certos sonetos de Marino e certas novelas de Casti chegam a parecer tratados de moral. São as obras dos menores expositores, os quais naturalmente se encontram mais embaixo, se mostram menor técnica e menor lógica, superam porém todas as outras na decência.”

Não sei se acaso pela data do relato (que inicia um estudo importante sobre o desenho da criança) ou pelo percurso pessoal do autor na descoberta da arte encontrada, mas estas palavras parecem se tratar do primeiro olhar cuidadoso de um adulto para a produção de arte da criança. Certamente foi um dos primeiros estudos da área a ser publicado. Neste projeto fomos inspirados a olhar para o trabalho das crianças, como Ricci, como se fosse a primeira vez que nos encantávamos com o fato da espontaneidade da criatividade na infância: um olhar surpreso, sensível e curioso. Porém para nós, diferente de Ricci, não nos bastava investigar a produção das crianças observando e classificando-as. Tínhamos muitas dúvidas com relação ao que poderia significar num processo artístico “menor técnica e menor lógica” e definitivamente não concordávamos com a opinião de alguns de sua época que o trabalho da criança tivesse pouco valor estético. Impelidos pelo desejo de conhecer mais sobre o fazer artístico próprio da criança assim como de valorizar o valor estético que enxergávamos nele quisemos propor foi uma autêntica experiência de criação coletiva entre adultos e crianças, produzir a fim de que a arte da criança tivesse seu espaço reconhecido assim como de reconhecer as diferentes qualidades das produções do adulto e da criança e criar relações e complementaridades a partir disto; questionando e promovendo reflexões em torno da produção artística contemporânea, não só a feita para crianças mas também as formas de fazer da arte dos adultos.

Em busca da alegria, da liberdade, do conhecimento, do desejo de criação realizamos nosso projeto. Éramos quase como Tolstoy há mais de 60 anos em sua experiência entusiasta de ensino de literatura aos filhos de Camponeses. Ele descreve em seu artigo “A quem e sobre o quê ensinar a escrever: os filhos dos camponeses de nós ou nós deles?” as experiência do que se poderia chamar experiência coletiva de criação, pois neste processo ele, ao ensinar os árduos processos da escrita com o objetivo fundamental de despertar o gosto pela literatura e pela escrita, propôs a criação coletiva entre ele e as crianças. Conta-se que ele iniciava escrevendo quando as crianças resistiam em começar e ele mesmo ajudava a compor o texto escrevendo, sem alterar em nada, exatamente o lhe ditava uma criança. “por exemplo, (uma delas) não tolerava alterar a ordem das palavras, se dizia: ‘tenho feridas as pernas’, não deixava dizer ‘tenho as pernas feridas’ e neste sentido podemos ver quão vigoroso era o sentido da forma verbal nesta criança que pela primeira vez abordava a criação literária.” Escreveram um livro juntos desta forma. As crianças se sentiram co-autoras e podemos imaginar com que entusiasmo.

Será que fizemos isso? Não. Sim. algumas vezes… não estou muito certa. Talvez… Algumas vezes ajudamos as crianças a escrever, a dançar, a filmar, a tocar. Algumas vezes elas nos copiaram. Outras não mostramos nada e deixamos com que elas descobrissem as melhores formas do fazer proposto verbalmente. Muitas vezes mostramos muitas referências sobre o que falávamos e fazíamos em nossos encontros. Algumas vezes escutávamos e realizávamos as propostas que eles traziam sobre determinado tema, outras não abríamos mão de realizar exatamente o que desejávamos alcançar em termos de criação para aquele dia. Algumas vezes, poucas vezes, nenhuma vez. Sempre o tempo atrás de nós a nos cobrar. Pelo menos até então éramos artistas.  Experiência de criação coletiva. Artistas adultos e crianças.

“Nas crianças, a expressão artística equivale a um experimento direto. Conquanto ocorra na área do sensível, o fazer não se coloca para a criança num plano diferente de qualquer outra experiência de vida – apenas é feita por nós com materiais que são considerados “artísticos”. Assim, a tensão psíquica corresponde à experiência, a criança a extravasa no momento da ação”.

Fenômeno bastante diverso nos adultos. Tensão psíquica em altos graus desde o momento de conceber as atividades semanais até neste momento de conceber, montar, escrever sobre a videoinstalação proposta no projeto. Tensão constante como um fio estirado que liga todas as experiências no varal do tempo. Neste minuto identifico minha inveja ao tempo presente da criança. Intantâneo. A experiência de seis meses está há 3 dias de seu fim. A exposição terá sua abertura. O público re-conhecerá a obra. Ela já não será mais das crianças ou dos adultos. Essa questão simplesmente não terá mais importância. A obra será de quem quiser. Caso ninguém a queira, ela será órfã. Como a menina dos sapatos vermelhos. Com dificuldade me desvencilho de palavras bonitas e vermelhas sem serventia para este texto. Hoje poucas certezas: aprendi com as crianças sem precisar me tornar aluna, elas aprenderam conosco sem precisarmos nos fazer ditadores, praticamos o ato da escolha diariamente e as crianças aprenderam conosco a escolher, isso me parece educação, isso me parece arte; menos ingênua conheci mais a criança e me tornei mais adulta, estou mais perto do fim e ainda tenho medo dele.

Renata Fernandes é bailarina e educadora, formada em dança pela UNICAMP.

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